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segunda-feira, 9 de maio de 2016

Walt Whitman

Walt Whitman (1819 – 1892) é considerado, merecidamente, um dos maiores poetas dos EUA – quando não o maior poeta – bem como de toda a literatura moderna ocidental. É lembrado, com frequência, como o inventor do verso livre, como também pela natureza sexual (bi-, homo- e autossexual, dependendo da interpretação) de seus poemas, bastante escandalosa para a época (e, bem, o que não era?), ou então ainda por sua relação apaixonada com a democracia – uma palavra perigosa de se usar por conta das conotações nefastas com que as ações dos EUA do século XX  acabaram lhe tingindo, melhor compreendida aqui se lembrarmos de seu sentido etimológico significando “poder do povo” . Devemos lembrar, porém, que há muito mais em Whitman do que isso.
Sobretudo, acredito que uma das caracterizações mais evidentes dele é o caráter celebratório e efusivo de sua poesia. Em comparação com outros angustiados poetas de destaque do século XIX, notavelmente Baudelaire (que, moderníssimo também para sua época, publica As Flores do Mal com apenas dois anos de diferença em relação ao primeiro volume das Folhas de Relva), Whitman nos parece estranhamente contente. E esse contentamento parte de sua relação com a natureza, com a literatura, com a sociedade e as pessoas em geral.
O epigrama  “To You”, por exemplo, traduzido abaixo como  “A Você”, com seu tom conciso e convidativo, aponta para esse lado inclusivo de Whitman, que reflete seu desejo, por vezes abertamente expresso em pessoa, de ser acolhido pelas massas,  o que, no entanto, não o impede de ser o autor de uma produção muito complexa – e lembramos também que “popular” em poesia é sempre muito relativo. De qualquer modo, independente do quanto ele realmente tenha sido lido pelo povo de fato, o que impressiona nesta postura é ser uma posição contrária à de “literatura somente para iniciados” que passa a predominar a partir do final do século XIX. Contraste este poema, ao lado também de “To a Stranger” (“A um Estranho”), com “A Uma Passante” de Baudelaire, e isso tudo se torna evidente. Em vez de todo o peso emocional de quem jamais encontrará a passante no fluxo contínuo de pessoas da grande cidade,  Whitman oferece uma resignação plácida, e a metafísica que um usa para o desespero (“Não te verei senão na eternidade? ”), no outro serve de conforto (“Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar”).
E essa placidez e receptividade, por sua vez, se comunicam com o aspecto messiânico de Whitman, como a figura de um Cristo americano – e Harold Bloom, de fato, lê a “Song of Myself ” de Whitman, em seu ensaio em O Cânone Ocidental, como uma canção de morte e ressurreição cristã – com seus braços abertos a todos, ao mesmo tempo em que está envolvido numa profunda relação consigo mesmo. Não me estenderei sobre o assunto, mas fica a sugestão de leitura.
Diante do tipo de sentimento que em Whitman procura expressão, não é surpreendente, portanto, que esta expressão tenha assumido forma no verso livre, mais especificamente um tipo muito particular de verso livre whitmaniano, não apenas sem métrica definida, mas longo (com frequência chegando a 20 ou mais sílabas) e, no entanto, efusivo e ritmado de modo a não soar prosaico. Há algo de profundamente musical em versos como “I hear America singing, the varied carols I hear”, que tentei manter na tradução abaixo.
E, falando em tradução, Whitman está disponível em português em pelo menos 6 edições de que tenho notícia: Canção de Mim Mesmo, de André Cardoso (ed. Imago), Canto de Mim Mesmo, de José Agostinho Baptista (português de portugal, pela ed. Assírio & Alvim), Folhas das Folhas de Relva, de Geir Campos (antologia e uma tradução bastante peculiar que quebra o verso longo em versos mais curtos, com introdução de Paulo Leminski, ed. Brasiliense),Folhas de Relva, de Rodrigo Garcia Lopes (ed. Iluminuras), Folhas de Relva, de Luciano Meira (ed. Martin Claret), e Folhas de Relva – Edição do Leito de Morte, de Bruno Gambarotto (ed. Hedra).
O critério que utilizei para a escolha dos poemas traduzidos a seguir foi o de selecionar alguns dos poemas mais curtos para servir de, digamos assim, “aperitivo”, de possível introdução para se conhecer um pouco sobre Whitman antes de partir para os poemas realmente longos e icônicos do poeta, como “Song of Myself”, inviável de se traduzir por inteiro no blogue.
Dito isto, cedo a voz ao grande poeta americano.

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