Follow by Email

domingo, 1 de novembro de 2015

O Romance da Raposa

Opinião:
Com este livro, regressamos às velhas histórias para miúdos (e, já agora, velhas histórias que não fazem mal nenhum aos graúdos). O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, agora em reedição. A iniciativa é da Bertrand Editora, e é bem meritória, assinale-se, pois recupera as ilustrações originais (a cores) de Benjamin Rabier; recorde-se que a partir dos anos 60, as ilustrações usadas nas sucessivas edições passaram a ser a preto e branco. 
   Em O Romance da Raposa o que se conta é a vida aventurosa de uma raposa chamada Salta-Pocinhas. Começa assim: 
   «Havia três dias e três noites que a Salta-Pocinhas - raposeta matreira, fagueira, lambisqueira - corria os bosques, farejando, batendo mato, sem conseguir deitar a unha a outra caça além de uns míseros gafanhotos, nem atinar com abrigo em que pudesse dormir um sonhinho descansado. Desesperada de tão pouca sorte, vinham-lhe tentações de tornar para casa dos pais, onde, embora subterrânea, a cama era mais quente e segura que em castelo de rei, e onde nunca faltava galinha, quando não fosse fresca, de conserva, ou então coelho bravo, acabado de degolar.» 
   O rigor e o desembaraço da linguagem, tantas vezes capaz de mostrar que a coloquialidade até pode ser a mais elevada forma de escrita, e sempre a sabedoria do povo em cada página, é o que se encontra n' O Romance da Raposa. Com a magia da efabulação do mestre Aquilino, a imaginação delirante e expressões que vão resistindo à passagem do tempo («quem não trabuca não manduca»). 
   Aquilino Ribeiro nasceu em 1885, na Beira Alta, e faleceu em Lisboa em 1963. A família procurou levá-lo a seguir a vida eclesiástica, chegando a fazê-lo estudar no seminário, mas a ausência de vocação levou-o a abandonar os estudos teológicos. Já em Lisboa, dedicou-se ao jornalismo, envolvendo-se em tentativas de derrube da monarquia. Chegou a estar preso, acabando por evadir-se e exilar-se em França, onde frequentou a Sorbonne. De regresso a Portugal, pelo início da Primeira Guerra Mundial, deu aulas e trabalhou na Biblioteca Nacional, ao mesmo tempo que ajudou a fundar a revista Seara Nova. Novas actividades conspiratórias levaram-no mais uma vez à prisão, o que originou segunda fuga para França (donde só regressaria em 1932, após uma amnistia). 
   Ao longo da sua vida, Aquilino Ribeiro teve uma intensa actividade literária (ficção, biografias, crónicas, ensaios, polémicas, tradução...). A primeira fase da sua obra romanesca, que se prolonga até 1932, é marcada pela sua origem rural. A partir daí, as personagens e os ambientes urbanos predominam, sempre com uma visão pessimista da existência humana. Exuberância do vocabulário, gosto por arcaísmos, regionalismos e termos da gíria popular, marcam os seus textos. Tudo isso contribui para a criação de um ambiente pesado, com o seu quê de barroco, à revelia da literatura urbana do século XX, o que o leva para fora de qualquer das tendências da sua época, colocando-o na literatura portuguesa num lugar à parte. 

                                 Aquilino Ribeiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário