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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O HOMEM, SEUS ÁLCOOIS

Não sei o que vale um homem.
A algaravia, talvez,
que o decifra e consome.
Ou a lei dos entrechoques
da alma com ela própria.
Não, o homem é só o som
que a palavra homem trescala.
Jamais sabemos quem somos.
Apenas não nos calamos.

Mas que vale mesmo um homem?
O pó que cobre São Paulo
e força uma certa lágrima
oxítona, paroxísmica?
E a lágrima, com seus dióxidos,
é mais dura? É mais burra?
Eclusas abrem-se às
– que, que não sossegam a carne
e, águas, perdem-se em águas?

Emoção, farsa, diamante:
quando é lícito chorar?
Quando, pasto sem remorsos,
nossa inteira consciência?
Tramas que nascem/esfazem-se,
que cowboy cavalga tanto
nos sonhos desta criança?

Mas que vale, sim, um homem?
Um pouco a palavra outrora?
Diplodocos sonambúlicos
ao som de violoncelos?
O corpo da amada nua –
a calma do único cais?
Vale o homem mais que a soma
do homem há tanto empilhado?
E que ôntica figura somos
em nenhum compêndio grafada?

Ou somos só isto mesmo:
a solidão entre álcoois,
o algoz da nossa alma troncha?

Não, não sei o que vale o homem,
se o decifro ou o traio.
Sei que existe a palavra homem,
como existe a palavra errado.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
Mas quem interpreta um homem:
cinco ases num baralho?
                                                                     Antoinio Brasileiro

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