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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Edifício São Borja

A ROSA DO POVO;
Cólica premonitória caminho do suicídio fome de gaia-ciência São Borja
Esqueléticos desajustados brigando com a vida nus surgindo à noite em fragmentos São Borja
Ritmo de poeta mais forte nesta mão se inoculando projeto de fuga ao Chileà tua casa de infância ao adro da igreja tomba da São Borja
Cerveja em copo de pedra sonhos os mais obscuros na palma da mão na reuma São Borja
Santo da mais pura estima nunca jamais invocado sem estrelas se desfazendo ou navios se cruzando e se saudando: boa viagem no caos
na peste
no espasmo Silo Borja
São Borja São Borja São
quatro mãos quatro facadas
num peito só todo aberto
e nele cabe a cidade
o vento na roupa
uma outra longa amazônia
São Borja
Edifício poço luz nome assobio no vácuo esperança de emergência São Borja São Borja
Imolação das venezaras terras distribuídas o mar limpo-a cabeça loura em ativa deleitação viajando sozinha São Borja
Palavras de muita força
embalsamadas
explodindo na alva
futuras verdades ainda sangrentas
cofre a saquear, jardim
de chaves fluidas
São Borja
Trompa de caça trombeta
de final juízo improvável
sinusite
raiva
São Borja
Canoa sem fado e peixes
canções jandaias madréporas
anêmonas
sorrimos
São Borja
outra vez sorrimos



O tempo se despencando
por trás das guerras púnicas
na face dos gregos
num dedo de estátua
posse de anel
segredo
São Borja
A vida povoada
a morte sem aproveitadores
a eternidade afinal expelida
estamos todos presentes
felizes calados
completos
Santo São Borja.

                        Carlos Drummond de Andrade

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