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sábado, 14 de novembro de 2015

A poesia

Contam, que o albatroz, ave peregrina,
Equilibrada nas possantes asas,
Em sidéreos adejos desparece
Na profundez dos páramos etéreos,
E dias passa, e noites em repouso
Solitária dormindo sobre as nuvens.

Assim pairando andava em outros tempos
Por outros mundos minha mente errante,
Qual abelha entre flores volteando,
De orbe em orbe vagueando incerta,
Colhendo pelo espaço as vagas notas
Do hino imenso, que o universo entoa
E deles repetindo sobre a lira
Em débeis ecos pálido transunto.
Poeta, os sonhos meus se esvaeceram
Co'as róseas névoas da manhã da vida;
Lá me ficou entre os vergéis floridos
Da fresca juventude a lira de oiro,
Que eu afinava ao som de eólias notas
Da mata entre os rumores, e ao marulho
Da fonte soluçosa, que borbota
Dentre penedos em musgosa gruta,
No doce enlevo de um cismar infindo.
Fulge-me ao longe essa formosa quadra
Do passado nas brumas quase oculta,
Bem como ilha encantada, onde algum tempo
Entre cantos e aromas embalei-me
Em mole berço de verdura e flores.
Mas ei-la, que entre as vagas azuladas
No doirado horizonte vai sumindo,
Como a dizer-me o derradeiro adeus,
Enquanto o meu batei, - mísero esquife
Já de longos errores fatigado,
- Aos tufões do destino abandonando
As estragadas velas triste singra
Para as praias do ocaso, onde só vejo
Bruxuleando lívidos fulgores
De agoureiro presságio entre as geleiras
De merencório inverno.
Ah! quem me dera
Agora reviver-te, ó quadra amena!...
Quem me dera poder neste momento
Revocar-vos das sombras do passado,
Êxtases puros, inefáveis sonhos,
Que a mente outrora ao céu me arrebatáveis,
De ideais emoções toda ofegante,
Pelas do espaço solidões infindas!
Então sim, eu pudera acompanhar-te
Em teus valentes, arrojados vôos,
E varando de novo a imensidade
Ir devassar harmônicos segredos,
Fulgurantes visões de ignotos mundos.
Então da lira as cordas afinando
Da solidão aos místicos rumores
De novo a voz dos ecos acordara
Na bronca penedia adormecidos,
E um canto ainda, embora fôsse apenas
Descorada lembrança de outras eras,
Unira aos hinos teus, cantor suave,
Que ao som cadente de gentis endeixas
Encantas hoje as margens deleitosas
Do opulento, caudal Jequitinhonha,
Margens felizes, que inda com saudades
Repetem hoje os mágicos acentos
De dous queridos filhos da Harmonia,
De Lessa e de Queiroga. Ah! que bem cedo
Eles se foram para além voando
Os dous ilustres sonorosos cisnes;
Há muito no horizonte se sumiram,
E ainda freme o ar aos sons vibrados
Por essas liras de imortal renome.
Segue-os agora tu com vôo ardido
No esteiro glorioso; expande as asas,
Cisne novel, ao furacão ardente
De audaz inspiração, que te arrebata;
Engolfa-te no azul do firmamento
Por abismos de luz e de harmonia,
E da poesia nas divinas fontes
Afoito voa a saciar tua alma
De luz, de amor, de êxtase. Contempla
De nossa terra, as solidões formosas.
Que esplêndidos painéis!. . . ah quanta vida,
Quanta harmonia e cor, luz e beleza
Tu não vês derramada pela face
Dos infindos sertões! as fundas selvas,
De estranhos rumorejos povoadas,
Essas montanhas, que dos crespos tergos
Em catadupas pelo vale entornam
Caudais ribeiros, que no leito rolam
Rubins, safiras, ouro e diamantes,
Essas colinas e tranqüilos vales,
Essas profundas sombras, grutas, veigas,
Solitários palácios do silêncio,
Que mistérios de ignota melodia
Não guardam para a mente do inspirado,
Que os interroga por serenas tardes,
Entregue a fronte aos tépidos bafejos
Da inspiradora viração dos ermos.
Canta, ó poeta. - Os horizontes d'ouro
Verter-te-ão na mente os seus fulgores;
Do manso arroio o tímido murmúrio
Virá gemer nas cordas de tua harpa;
E a viração macia. que esvoaça
Beijando as flores na virente encosta
Te ensinará seus frêmitos suaves
Para cantar as festns e os amores,
As meigas tardes, e as manhãs formosas.
O furacão, que ruge fustigando
De selva intonsa a grenha arripiada,
A catarata, que entre penhas ronca
Das solidões atordoando os ecos,
E da borrasca o temeroso estrondo
Dos elementos concitando as fúrias,
A voz te prestarão solene e forte,
E as sombras carregadas, com que pintes
A majestade, as cenas grandiosas,
O bronco aspecto, as convulsões medonhas,
Da virgem natureza americana,
Que no deserto as iras apregoam
Do Rei da criação. Canta, ó poeta,
A natureza, e as solidões formosas
Desta querida abençoada pátria.
E lá, que a inspiração nos arrebata
Nas diáfanas asas fulgurantes,
Como o carro de fogo de profeta,
Nos fazendo esquecer no pó da terra
Dos cuidados da vida o manto incomodo,
E nos arrouba à transcendente esfera,
Onde ressoam divinais concentos
De nunca ouvidos, inefáveis cantos.
Canta, que eu já na lira esbambeada
Mal posso recordar uns frouxos ecos
Dessas modulações, que ouviste outrora.
Da fantasia as asas engelhadas
No mal sustido adejo já não ousam
Qual transparente nuvem luminosa
Do horizonte os matizes refletindo
Abalançar-se às regiões etéreas,
E qual rasteira névoa apenas pode
Pelas sombras do vale espreguiçar-se.

II

Morre o poeta, a lira se espedaça
De encontro à pedra da funérea lousa;
Mas não morre a poesia; eterna fênix
Cada vez mais louçã se reanima
Dos cisnes seus nos perenais gorjeios;
De evo em evo novas galas veste,
De estranhas, novas flores se atavia,
E novas cordas ajuntando à lira
De dia em dia mais caudais entorna
Torrentes de mirífica harmonia.
Sim, tu és imortal, virgem celeste,
Santa e nobre poesia !...Embora o carro,
Em que a mão da ciência atrela e doma
Da natureza as mais pujantes forças,
À conquista voando audacioso
De bens terrenos, que a matéria outorga,
Ao fragor do rodar vertiginoso
Busque abafar-te o sonoroso canto:
Embora o fumo da fornalha ardente,
Em que o progresso em afanosa lida
Industriais prodígios elabora,
Tente cobrir de véus caliginosos
O teu rosado, esplêndido horizonte:
Embora tristes agoureiras vozes
Clamem, que está já findo o teu reinado,
E que a história dos tempos, que ora correm
Sob o império do cálculo impassível
Só da fria ciência a mão severa
Pode escrevê-la em lâminas de ferro,
Não, tu não morrerás, virgem celeste.
Enquanto sobre a terra a branda aragem
Ondear à selva a sussurrante coma;
Enquanto os prados desbrocharem flores
Da primavera ao tépido bafejo;
E o manso arroio às árvores frondentes
Da fresca riba murmurar queixumes;
E pelo azul da cúpula celeste
Milhões de estrelas tremulas fulgirem;
Enquanto o astro pálido das noites
Mavioso clarão enviar à terra,
E a rósea aurora de seu coche d'ouro
Nos caminhos do sol entornar flores:
Enquanto o peito humano sobre a terra
Ao fogo se aquecer de emoções puras,
De amor, de fé, de santas esperanças;
Enquanto em cismas de ideais afetos
Embalar-se enlevada a fantasia;
Enquanto um meigo, encantador sorriso
Brincar nos róseos lábios da beleza;
E do pesar as lágrimas doridas
Não se esgotarem nos humanos olhos,
Não, tu não morrerás, virgem celeste.
A lira eólia ao perpassar das auras
Por força há-de gemer sons maviosos;
E a caçoula, a que a mão do artista santo
Tocou fogo do altar, aos céus o incenso
Há de enviar em nuvens redolentes.
A alma do poeta é lira eólia,
Que no centro do harmônico universo
Oscila ao sopro de celestes auras;
Quando da inspiração o bafo ardente
Lhe vem roçar em frêmitos sonoros,
Espontânea derrama sons sublimes
E a turba absorta aos mágicos acordes
Atento ouvido fascinada inclina. 
E o coração do bardo é a caçoula
De fragrantes essências saturada;
Cai-lhe no seio divinal centelha,
E dela se erguem místicos aromas
De amor, de fé, de ardente entusiasmo.
Tudo no mundo cisma, geme ou canta;
Tudo em cadência harmônica se move,
Desd'os orbes, que em torno ao rei das luzes
Em giro perenal tecem coréias,
Té o dourado, pequenino inseto,
Que em viçosos vergéis voa zumbindo,
E o seio beija às orvalhadas flores;
Desd'o oceano, que de pólo a pólo
Em vagalhões bramindo se arremessa,
Té o regato humilde, que nas grotas
Por entre sombras trépido se esquiva.
Tudo no mundo é voz, canto, harmonia,
E a natureza inteira é um poema
Por Deus escrito em páginas eternas,
Que estão narrando seu poder imenso.
Sim, tu és imortal, virgem celeste.
Só quando os orbes todos desabando
Desgarrados das órbitas vagarem
Se abalroando pelo horror do espaço;
Só quando a natureza agonizante
Nutando enfim nas contorsões medonhas
De universal, tremendo cataclismo
Sumir-se aniquilada em treva eterna,
E quando o mudo, pavoroso caos
Sentado entre as ruínas do universo
Vier de novo reclamar seu cetro,
Então somente cessarão teus cantos
E desaparecendo entre os escombros
Dos derruídos mundos, que já foram,
Remontarás além dos firmamentos
Tua origem divina procurando,
E ao pé dos tabernáculos do Eterno
Irás achar nunca turbado asilo
Por entre os coros dos celestes bardos,
Que pelos átrios da eternal Solima
De Deus a glória sem cessar proclamam.

III

Canta, ó poeta, enquanto a sacra chama
Te aquece o coração, te alenta os vôos.
E de manhã, que os passarinhos cantam
Seus mais frescos, harmônicos gorjeios.
À tarde geme o sabiá saudoso
No tope excelso de virente cedro;
À noite só ulula em sons carpidos
Entre ruínas agoureiro mocho.
Canta, antes que o inverno congelado
Na urna de teu peito extinga a chama,
Que faz subir aos céus o incenso d'alma>
E da vida nos álgidos caminhos
Venha murchar da fantasia as flores.
Canta; bem-vindo seja esse teu canto,
Que em minha alma acordando ecos de outrora
Abre meu seio aos cânticos e às flores.

             Bernardo Guimarães

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