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domingo, 29 de novembro de 2015

A ENXADA

Piano carece de uma enxada. 
Vai ao padre. 

- Seu padre, m’impresta uma enxada. 
Tou carecendo demais. 
- Tinha. Tem mais não. 
Outro levou. Nem sei quem. 

- Seu vendeiro, me vende uma enxada. 
Fiado. Na colheita lhe pago. 
- Tem não. Sei bem como são. 

- Minha gente do porco, 
me prouve uma enxada. 
Caco que seja me serve. 
- Tem não. 
- Aquela acolá, 
pinchada, m’impresta. 
- Essa não, é do minino bricá. 

- Bão dia, patrão. 
Vim buscá sua semente, plantá. 
- Leva, preguiçoso, ladrão. 
- Preguiçoso, ladrão, num sou não. 
Vou plantá seus arrôis. 
Inté amanhã tá tudo plantado. 
No rancho não tem decumê. 
Somente guarapa fria de rapadura. 

O bobo regogou, 
rugido de fome. 
Barriga vazia. 

Piano, calado, puxou manso 
beira baixeiro. 
Enrodilhou. 
Sono canino sonhou. 
Espeto de carne pingando na brasa. 
Farinha bem cheia de monte. 
Panela de arrôis gordurando. 

Enxada! Tanto de enxada 
entrando no rancho! 
Enxada encabada, sem cabo. 
Libra e meia, duas libras, 
duas caras de marca, 
tinindo de novas, lumiando, 
relanciando, dadas de graça 
pra escolhê. 

Piano acordou. 
Manhã, nem. 
Lua no alto parada no céu. 
Passarinho dormindo, 
o mato dormindo. 
O saco nas costas, 
caminho da roça, 
patrão muquirana, acredos! 

E baixou, bicho no chão 
e furou 
e plantou, 
agachado, arrastando. 
Toco de pau. Toco de braço. 

Coragem de pobre, 
seu medo de pobre 
furando, 
plantando 
arrôis do patrão. 

Prazo vencido. 
Pua de pau furava. 
Toco de dedo sangrava, 
plantava. 
O dia alto, 
alto ia o sol, 
tinia de quente. 
Passarinho cantava. 
Deus do céu espiava. 
Tudo, quasinho acabado. 
Roça furada, 
plantada. 
Um toco de pau, 
um toco de braço, 
cinco puas de dedos, 
feridos na carne. 
Restinho de arrôis 
no fundo do saco. 

Eis chegam dois ferrabrases. 
Jagunços mandados, armados. 
Patrão mandou vê... 

Piano aprazível: 
- Nhorsim. Arrôis já plantado. 
Coisinha de nada 
sobrando no fundo do saco 
indoje plantado. 

Os dois ferrabrases: 
- Patrão mandô exemplá ocê. 
Risca ligeiro, na frente. 

Pou! 
um tiro estrondou. 

Passarinho assustou, 
não cantou. 
Atrás do toco 
Piano acabou. 

A roça plantada. 
Semente de arrôis 
tiquinho de nada 
sobrado no fundo do saco. 

- Alvíssaras, patrão! 
Serviço bem feito. 
Ninguém viu nada. 
Ninguém falou nada. 
Sua roça plantada 
com toco de pau. 
Piano caído de toco na mão. 
Alvíssaras, patrão! 
Seu mando bem feito. 

Patrão, sossegadão: 
- Assim se pune 
preguiçoso, ladrão. 

No meio da roça 
Piano já frio. 
Sangue coalhado no chão. 
Formigas em festas fartando. 
Restinho de arrôis 
no fundo do pano, 
passarinho cantando. 

Tempos passados... 
na festa da vila. 
Fogos queimando, 
estourando, 
bandinha tocando, 
meninos brincando, 
foliando. 
Viram quando 
velha aleijada, 
amontada na cacunda do bobo 
esmolando. 
Gritaram, vaiaram: 
- Tomove! Tomove! 

Da ponta do boteco 
alguém reparou: 
- A mó qui é gente do Piano... 

Pedras jogadas, 
risadas. 
Crianças correndo, 
com medo. 
Os abantesmas... 
O bobo espantado 
com a mãe na cacunda 
montada 
virou pra trás. 
Roeram sua fome, 
miséria, aleijume 
no fundo do mato. 

Os compadres 
proseando de manso: 
- E a roça de arrôis, 
saiu bem? 
- Patrão colheu tudo. 
Num ficou satisfeito, 
mandou ferrabrais 
no rancho do desinfeliz 
arrecadá algum leitão magro, 
galinha de pinto que fosse, 
ajutorá pagamento restante. 
Os home chegaro, 
viro miséria: 
o mudo, 
a veia aleijada. 
Metero deboche: 
se era casado, 
marido e muié. 
O bobo infezou, 
sabe cumo é, bobo infezado. 
Garrou porrete, 
escorou, 
sem midi fraqueza. 
Os barzabu isso quiria. 
Dero piza. 
Só num quebraro de tudo 
que a veia se arrastando 
pidia pru amô de Deus 
deixasse o fio, 
sua valença. 

Em antes, 
derrubaram o rancho, 
dero fogo. 
O tonto, 
co’a mãe na cacunda 
ganharo o mato 
e foro saí na toca 
da Grotinha. 
Lá se intocaro 
co’s mulambo do corpo. 

- E cumo veve, cumpadre? 
- Deus dá. 
Tendo água de bebê 
e fogo pra esquentá 
isso pobre veve muito. 

Aleijado, cego e bobo 
é nação de gente vivedô, 
duença num entra neles. 

Diz que lá em tempos, 
tinha inté pexe bagre na cacimba. 
Alimparo tudo. 
Num tem mais nem inseto. 
Passou lá o Militão, 
o veio raizero, 
inté posô. 
Deu conseio. 
Espiritou o bobo fazê tocaia 
na grota da noite, 
sentá porrete, 
bicho miúdo com sede, 
cutia, preá, cachorrinho do mato, 
inté ratão. 
Deu certo. Muqueia, sapeca, 
num passa fome não. 
Insinô a fazê arapuca 
pegá passarinho. 
Deu. 

- Agora, cumpadre, 
tão contando visage. 
Lá na roça tem vela acendida 
na cabeça dos toco, 
diz qui o sufragrante 
tá fazendo milagre. 
Já viro, das veiz, 
cavoucando, gemendo. 
Diz qui deu carrera 
em gente viva. 

- E os quinhoado 
levam sustento, 
algum trapo de cubri? 

- Isso num informo, cumpadre. 
Mais o processo qui o Juiz 
abriu deu in nada. 
E o delegado feiz diligença, 
num teve testemunha, 
diz que num foi crime. 
Morte de acauso, 
os home caçava era tatu. 
Viro um rebolo no chão, 
dero tiro de longe, 
acertaro no desinfiliz. 

Aí, andaro na lei. 
Levantaro o cadave, 
mandaro intregá 
pra famia fazê sepurtamento. 

- E daí, cumpadre? 
- Um crente piedoso sidueu. 
Levou carroça de noite, 
meteu o falecido num saco, 
tocou pra vila, 
deixou no portão do sumitero. 

- Bamo chegando pra frente, cumpadre. 
Musca tá chamando nós. 

                                  Cora Coralina

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