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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Amor e Eternidade

Repara, doce amiga, olha esta lousa, 
E junto aquela que lhe fica unida: 
Aqui d'um terno amor, aqui repousa 
O despojo mortal, sem luz, sem vida. 
Esgotando talvez o fel da sorte, 
Podarem ambos descansar tranquilos; 
Amaram-se na vida, e inda na morte 
Não pôde a fria tumba desuniu-os. 
Oh! quão saudosa a viração murmura 
         No cipreste virente 
Que lhes protege as urnas funerárias! 
E o sol, ao descair lá no ocidente, 
         Quão bello lhes fulgura 
         Nas campas solitárias! 
Assim, anjo adorado, assim um dia 
De nossas vidas murcharão flores... 
Assim ao menos sob a campa fria 
Se reúnam também nossos amores! 
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto, 
Teu bello rosto no meu seio inclinas, 
Pallido como o lírio que ao sol posto 
         Desmaia nas campinas? 
Oh? vem, não perturbemos a ventura 
Do coração, que jubiloso anceia... 
Vem, gozemos da vida em quanto dura; 
Desterremos da morte a negra ideia! 
Longe, longe de nós essa lembrança! 
Mas não receies o funesto corte... 
         Doce amiga, descansa: 
Quem ama como nós, sorri à morte. 
         Vês estas sepulturas? 
         Aqui cinzas escuras, 
Sem vida, sem vigor, jazem agora;    
Mas esse ardor que as animou outr'ora, 
Voou nas azas d'imortal aurora 
         A regiões mais puras. 
Não, a chama que o peito ao peito envia 
Não morre extinta no funéreo gelo. 
O coração é imenso: a campa fria 
É pequena de mais para contê-lo. 
Nada receies, pois: a tumba encerra 
Um breve espaço e uma breve idade: 
É o amor tem por pátria o céu e a terra, 
         Por vida a eternidade!  

                                                Soares de Passsos

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