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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A neve estava suja

primeira parte — Os fregueses de Timo, 7
segunda parte — O pai de Sissy, 83
terceira parte — A mulher à janela, 163
                   
                     PRIMEIRA PARTE_Os fregueses de Timo

Não fosse um acontecimento fortuito, o ato de Frank Friedmaier naquela noite teria tido uma importância apenas relativa. Frank, evidentemente, não havia previsto que seu vizinho Gerhardt Holst passaria pela rua. Ora, o fato de Holst ter passado e tê-lo reconhecido mudava tudo. Mas isso também, e tudo o que iria se seguir, Frank aceitou. É por isso que o que aconteceu naquela noite perto do muro do curtume foi bem diferente, para o presente e para o futuro, da perda de uma virgindade, por exemplo. Foi o que Frank pensou de início, e essa comparação o divertia e ao mesmo tempo o envergonhava. Fred Kromer, seu amigo — é verdade que Kromer tinha vinte e dois anos —, havia matado mais um homem na semana anterior, justamente ao sair do bar do Timo, onde Frank se encontrava alguns minutos antes de se apoiar contra o muro do curtume. Será que o morto de Kromer podia mesmo entrar na conta? Kromer se dirigia para a porta, abotoando sua peliça, ar importante, como sempre, um charuto grosso em seus lábios grossos. Ele reluzia. Kromer estava sempre reluzente. Tinha uma pele grossa, espessa como a de certas laranjas, e parecia suar. Alguém o havia comparado com um touro jovem que não consegue se satisfazer. Em todo caso, é em algo sexual que seu rosto espesso e brilhante, seus olhos úmidos, seus lábios inchados faziam pensar. Um sujeito magro, baixinho, um pouco pálido e febril como há tantos, principalmente de noite, tinha se postado bestamente em seu caminho — ninguém acreditaria, vendo-o, que tinha dinheiro bastante para vir beber no bar do Timo — e havia lhe passado uma descompostura, agarrando-o pela gola de pele...
        Tradução Eduardo Brandão.  
  Georges Simenon

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